• Comissões Internacionais

    02 de Abr, 2013

    Ética na busca da Justiça e da Solidariedade


    O presente texto tem por objetivo contribuir na construção de uma reflexão que leve ao compromisso e à solidariedade com os injustiçados/as que são atingidos/as pela lógica perversa do mundo sistêmico-instrumental, que não leva em conta a ética. A luta pela emancipação dos seres humanos marginalizados e desprotegidos/as dos seus direitos humanos fundamentais exige uma interpelação ética. A preocupação de fundo é propor uma dinâmica de convivência que gere uma atitude de cuidado na perspectiva de uma cosmovisão de ser humano que respeite a alteridade.

    O que é ser ético/a? Por que ser ético/a? Só precisa de ética aquele sujeito que se sabe inacabado, não pronto e que está sempre em processo. A ética (ethos) compreendida como a arte da convivência, leva-nos a agir responsavelmente. A ética do amor universal e incondicional visa a orientar atitudes e comportamento dos seres humanos em relação aos outros, na sociedade onde estão inseridos. A singularidade e a pluralidade são elementos que caracterizam e constituem a originalidade de cada pessoa e promove, no caso da ética, a responsabilidade no agir humano.

    O sentido primeiro da ética é “restaurar a injustiça” da vítima levando em conta a responsabilidade social, que consiste no cuidando de si e no cuidado do/a outro/a, com todas as implicações decorrendo daí um protagonismo ético político, econômico e sociocultural. A importância de comprometer-se com um jeito de viver requer escolhas e atitudes solidárias na luta pela justiça e pela verdade, nas diferentes realidades pluriculturais da existência humana. Estes espaços interpelam por uma razão ética que oriente a reflexão engajada na práxis de sujeitos críticos e criativos para uma ação coletiva que abra horizontes de vida digna em face da dignidade de cada pessoa. Assim, a justiça das vítimas nos mobiliza e responsabiliza a ter uma atitude frente ao sofrimento dos injustiçados/as.

    O chamamento ético é para pensar o modo de “como se vive”. O sentido ético está na capacidade de resistir e dizer não às circunstâncias que negam a vida. Nesta perspectiva, uma das Urgências da Congregação e do Planeta assumidas, no Capítulo Geral de 2009, assevera: “viver um estilo de vida ético, contrapondo-nos ao consumismo e a tudo o que fere o ser humano e a integridade da criação, cientes de que cada escolha que fazemos tem impacto na sociedade e no planeta” (Doc. Final CG, 2009, p.7, n.3). Diante de tal decisão faz-se, necessário refletir e educar-nos continuamente para uma vida ética e solidária. Frente a este propósito, cabe questionar-nos sobre a nossa responsabilidade e sobre qual o impacto do nosso agir no mundo. Pois, quando indagamos sobre “o que fazemos” e “o que pensamos” remete à ética do compromisso. Dado o exposto, a ética se ocupa do sentido da vida que vai se estruturando a cada dia de modo dinâmico. Isto exige alteração dos vícios e reafirmação de atitudes de respeito à ecologia humana. O cultivo de uma vivência ética orienta para posturas de respeito às diferenças, o que leva assumir os valores éticos como compromisso com a causa dos empobrecidos/as, tendo como referência a justiça e a paz como crítica ao mundo instrumentalizado na perspectiva evangelho. A finalidade da ética é auxiliar a fazer escolhas certeiras, e segundo Mário Sérgio Cortella: “tem coisas que eu quero, mas não devo, tem coisa que eu devo, mas não posso e tem coisa que eu posso, mas não quero”. No giro do raciocínio de Cortella aparece a orientação de como romper com os preconceitos para garantir uma educação de mudanças substanciais sem violações da dignidade humana.

    A urgência da educação ética e o propósito de promover mudanças reais que criem condições de convivência humana exige que se discuta de forma mais aberta, com qualidade e sabedoria, o enfrentamento dos desafios do cotidiano. Isto exige consciência crítica em relação a nossos dogmas e crenças ingênuas e fechadas. As dificuldades são muitas e os desafios para enfrentá-las exige novas convicções e definição política que está para além das retóricas dos discursos articulados. O evangelho e o nosso próprio carisma nos convocam continuamente à responsabilidade conosco mesmas e com os/as outros/as. Temos que aprimorar o direito e o dever à informação e à educação pertinente para os nossos tempos. Urge abrir espaços de discussões para juntos/as construirmos processos educativos de convivência humana que promova a paz e a justiça.

    Com a emergência da filosofia na cultura ocidental a ética foi inaugurada como uma atitude de vida e de ação no âmbito do privado e do público. Neste sentido, estão imbricados comportamentos do bem viver e da integralidade da pessoa humana no plano da criação. A importância de fazer escolhas sempre exige critérios éticos definidos racionalmente. Daí decorre a necessidade de saber o que pauta o nosso agir em nossas instituições, para conservar sempre a nossa postura de instituinte como instituídos/as para respeitar o direito à vida como valor ético.

    Somos convidados/as a pensar sobre o tipo de relações pessoais e sociais que queremos garantir em nossos processos de construção comunitária, a fim de reconhecer-nos como “iguais” e “diferentes”, ampliando espaços referenciais de luta pela liberdade político-cultural num agir comunicativo que garanta a roda do diálogo. De fato, assegurar a diversidade é indispensável a “criatividade do espírito” entendido como discernimento sociocultural, buscando meios éticos para estabelecer a justiça como crítica à ordem causadora de vítimas para trazer à luz o significado da violência, que na atualidade, é suportada como normalidade. A justiça das vítimas é o critério ético a partir do qual deve orientar o sentido da justiça e da ética. Acreditamos que o processo educacional do ensino-aprendizagem numa perspectiva ética continua sendo um desafio permanente e difícil, pondo em questionamento as próprias contradições da vida, mas, também, reforça as lutas solidárias guiadas por valores éticos indispensáveis para uma cultura de paz e justiça no respeito e promoção da dignidade humana.

    Irmã Nilva Rosin
    Membro da Comissão Justiça e Paz e Integridade da Criação (JPIC) da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry. Professora do Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE) em Passo Fundo/RS - Brasil
     




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